para ler ouvindo: Nina Simone I Put a Spell On You
Sabia de cor seus traços e movimentos. Seria capaz de reconhecê-la ao longe, ou em qualquer aproximação menor que um segundo. Sabia seu cheiro, sua textura, seu toque. Sentia sua presença, mesmo que ainda distante, se aproximando. O modo que seus pés se combinavam com o chão no caminho do encontro, a soma de suas cinco chaves, num chaveiro de violão, fazendo o barulho único ao chegar próximo da porta daquela que era uma casa das duas. O barulho das chaves feito naquele dia que Alice chegou adiantada pro jantar surpresa preparado para comemorar a viagem porvir. Ela também queria surpreender. Saíra mais cedo do trabalho, que andava a consumindo e não permitia tantos momentos compartilhados. Ela sempre queria dormir mais cedo e a outra queria conversar enquanto ela dormia ouvindo as histórias do cotidiano da outra, era inevitável.
Era bom saber da viagem, Alice largaria algumas coisas e passariam um tempo na Argentina, o aluguel de uma casa lá estava barato, souberam por uma amiga atriz que havia passado uns tempos por lá estudando.
Ana sonhava em passear por aquelas casinhas coloridas e queria comprar livros baratos. A outra queria uma foto do lado da Mafalda. A Mafalda porque era isso que as tinha unido há algum tempo, em algum sebo perdido nas ruas do centro de São Paulo. A mesma procura por um livro. Um sorriso trocado. O fato de saírem e se reencontrarem no metrô. Tiveram de se falar e tudo aconteceu tão rápido. É surpreendente o amor às vezes, pra não dizer que deve ser sempre.
Em pouco tempo estavam morando debaixo do mesmo teto, era inevitável a proposta, gastar dois aluguéis pra ficarem o tempo todo juntas não era algo muito inteligente. E além do mais, a zona leste parecia longe demais, cada vez mais, pela medida da necessidade de se verem, do centro. O centro tinha tudo que pudessem precisar e tinham planos de voltar a estudar, Ana ia pras cênicas, Alice pra letras e lá tinha uma faculdade que tinha fama de muito boa pros cursos.
Então iam vivendo os dias que vinham, conhecendo os detalhes que eram únicos em cada uma. Decorar a disposição das pintas no corpo, a tatuagem nas costas de Ana, a cicatriz de uma queda de um portão na infância marcando o joelho direito de Alice. As marcas da vida. As histórias vividas.
As preferências musicais discutidas e a falta de prazer de ver televisão que era mútua, esta que acabou virando um objeto de apoio das plantas que vieram à tira colo com a chegada de Alice. Ela dizia que ter plantas era uma prova de saber como cuidar das coisas. O engraçado é que ela tinha muitos cactos, o que fazia com que Ana brincasse muito com o que ela dizia sobre o cuidado com as coisas, já que um cacto vive nas condições mais adversas.
A falta de habilidade de Ana na cozinha, que chegou a queimar um miojo, foi uma história que contou pra Alice quando ela pensou em convidar uns amigos para um almoço no Domingo de Páscoa. Ela achava melhor um restaurante na zona Oeste. Acabaram combinando oficinas de cozinha. Era divertido ouvir música e fazer diferentes tipos de comida, a que Ana mais queria aprender era a receita tomates verdes fritos, tinha aquela coisa de ser o seu filme predileto, além de falar de uma história de amor tão bonita. Ela achava que tinha bem a ver com elas duas. Também queria repetir a cena de lambança com os ingredientes. E o fez… Chocolate no rosto, farinha no cabelo. Parece que aquele barulho do riso daquele momento ficou ressoando nas mentes, na casa, por muito tempo.
As tardes do Sábado eram dedicadas a fazer sempre alguma coisa diferente, sair por São Paulo e descobrir coisas gratuitas. Ficar em uma livraria aproveitando os livros que não podiam comprar. Tomar um café. Pegar um cinema. Limpar os discos e ouvir na vitrola que tinham comprado na primeira semana de morar junto. Tinham achado numa loja na Santa Ifigênia, muito barata e até que funcionava bem, tiveram que trocar a agulha, mas a partir daí funcionou direitinho. Achavam que a música na vitrola tinha um som muito diferente, muito melhor. Melhor ainda quando tocava em uma tarde chuvosa, um disco qualquer de jazz e Ana fazia um café, o café preferido de Alice, que achava que para se relacionar bem com uma pessoa era preciso saber se ela fazia café bem. Tiveram muitas músicas que diziam a história delas. Uma variação de Itamar Assumpção a Billie Holiday.
E iam se reconhecendo diariamente. Até se saberem automaticamente. Sabiam o modo dos corpos sentirem. O que os causava prazer. O que os ouvidos queriam ouvir. A música daquele momento. Falavam juntas tantas vezes. E responder “eu também” era algo tão comum que às vezes ficavam em silêncio e riam por saber o que queriam dizer apenas com o olhar, e que havia concordância.
Mas acontece de a vida ser cheia de desencontros. E o amor às vezes fica ao contrário e as coisas não parecem mais bonitas e os pássaros não cantam mais aquela melodia e chega a raiva de ouvir aquela música que fala do “nós dois”, ou uma cena romântica numa praça, que se torna irritante, extremamente irritante. Separações.
Ana se foi um dia antes da viagem, sem deixar bilhete. Alice se sentia apunhalada ao ser deixada num lugar que não era exatamente seu, com as contas por pagar. Sem entender nada do que estava acontecendo. Um momento com uma trilha sonora bem Nina Simone: “I put a spell on you”… de ficar pensando: “Como pode, você era minha, você é minha!” Um desespero de gritar, de cortar, de chorar “até ter dó de mim…”.
Os dias passavam sem serem nem terem sentido. Havia um desprazer imenso em acordar e encarar as coisas, os fatos cotidianos. O silêncio da casa. O barulho da rua. Todas milhões de informações de um trabalho que já não lhe dava prazer e agora dava cada vez menos. Um desejo de desaparecer cada vez mais constante. Ela se perdia nos caminhos repetidos todos os dias. A falta se tornava tão cotidiana que às vezes esquecia-se de sentir falta. E ia percebendo ao longo dos muitos dias, que se acumulavam em meses, que passavam, as coisas se tornavam turvas e não podia mais saber o que era tudo aquilo que sabia de cor, os traços se perdiam e não poderia mais a reconhecer se a encontrasse numa rua. Não sabia mais fechar os olhos e saber os detalhes de seu corpo. E isso era triste. Se saber cada vez mais perdida das coisas que a memória gostava de sentir, mesmo que doesse.
Precisava mudar, voltar a ter uma vida social. Sair pra tomar chuva numa tarde de Domingo, voltar a andar, comprar novamente lp´s, aumentar sua coleção de cartões postais. Largar vícios adquiridos com a ausência dela. Fumar estava fazendo muito mal. Uma dor de cabeça constante havia lhe tomado. Além de ter uma ressaca constante, já que a única coisa que tinha feito bem naquele tempo era a escolha de vinhos baratos no mercado sujo mais perto de sua casa.
Precisava voltar a sentir, procurar novas coisas, se entregar a qualquer coisa, sentimento que fosse. Fazer um curso, porque tinham largado a faculdade pra viajar, largar o emprego, procurar um psicólogo, cortar o cabelo, ver um show bacana, uma peça a toa, andar pelas ruas, pegar um ônibus desconhecido e saber onde vai dar, ouvir histórias, sentir o ar ou viajar, desde que cancelou a passagem pra Argentina não tinha chego nem sequer próximo da rodoviária. Mas essas coisas… Ela não sabia bem por onde começar, qual é a linha que leva alguém pra reviver a vida? Qual a escolha que se faz pra largar a angústia que insiste em acordar todo dia do seu lado? Qual o domínio que se tem diante das coisas? Qual a certeza que pode se ter de que irá surgir de novo alguém? E de que se vai amar de novo? E de que isso resolve todo o passado?
Ela se sentia fria. Incapaz de acreditar em qualquer novo fato. Em qualquer pessoa. A gente fica meio descrente depois de sentir isso que chamam de amor. Vai ficando difícil confiar, acreditar em qualquer coisa que te faça sentir aquela sensação estranha do estômago, como se tivessem alguns bichinhos dançando lá, chegando aquele frio que vem até a garganta. E chega a dar raiva de um pensamento perdido na pessoa. Não, não podia sentir isso. Era como voltar todo o sofrimento.
Por isso era mais fácil fugir, dizer que já não tinha mais idade pra isso. A idade é um meio fácil de justificar todas as coisas. Como se ela chegasse e tudo se tornasse um tanto impossível, amar, sair…Como se ela justificasse um saber não se machucar.
Ela chegou a ter uma nova pessoa na vida, mas era nova demais, tanto tempo de diferença, não, não pode ser, Luiza ainda acreditava ser possível se apaixonar perdidamente, além de ser possível amar duas pessoas ao mesmo tempo.
Luiza, porém, a prometia que queria ser só dela, o que deixava Alice bem confusa, mas no fundo fazia isso só porque Alice não acreditava nesse lero lero de dois amores, e ainda se encontrava com a ex, que morava numa cidade bem distante e dizia ter um carinho imenso por ela. Tudo acabou, mas tudo acabou por voltar de um jeito bem desresolvido. A relação acabou se tornando uma loucura. Mesmo não acreditando que gostasse de Luiza, Alice queria que ela estivesse por perto, pelo menos nesses momentos não sentia coisas tão ruins pela vida, mas ao mesmo tempo não queria desenvolver nada. Então se foi criando uma dependência mútua de estarem juntas e de discordarem em tantas coisas na vida. Uma dependência da sensação do abraço. Da voz que chega. Era inevitável…
Tão doce e amargo como pode ser o veneno. A magia doida que se deseja.
Como disse o Danzig numa musica sobre o amor “if you don’t want the pain, you don’t understand”
Oi. Gostei muito. Parabéns.
Dá uma olhada nesse site: http://www.editoramalagueta.com.br/editora2/como-enviar-originais.html
beijos;)