Que muit@s feministas me desculpem, mas acho necessário expressar algumas coisas que penso e que acredito serem interessantes sendo colocadas em pauta para discussão.
Acho, sim que nossa sociedade seja machista, não há como negar, a realidade está evidente, gritando a cada comercial de cerveja, ao ver como as profissões são divididas por gêneros, uma imensidão de coisas. Entretanto, considero complicadíssimo o modo como se procura ir no caminho contrário disso. Vejo muitas mulheres se fechando em grupos que aceitam apenas mulheres e têm um ideal que me soa apenas fazer a mesma coisa do lado contrário, ou seja, praticar a mesma violência, seja simbólica, seja corporal, o que for. A revolta acaba deixando de ser contra a violência, mas sim pra poder execer ela contra quem já exerceu diante de você. Esse jeito de agir não conseguirá mudar a realidade, mas irá refazer ela sempre, de modos parecidos. Como disse certa vez Michel Foucault, em critica ao modo de ação do movimento negro, no qual percebia que o que se queria, na verdade, era mudar quem ocupa o lado do opressor. Isso pra mim não adianta nada.
Também aqueles que ficam felizes quando homofóbicos apanham, ou outros que acreditam na pena de morte (acho que está muito próximo) também me perdoem, mas isso é o que além de fazer a mesma coisa que você sofre?
Existe, sim, minhas dificuldades em aceitar diversas coisas dos outros, desde as músicas que não me agradam às ideologias que apregoam, mas é um exercício cotidiano tentar entender o outro e respeitá-lo. Não quero, com isso, dizer que não acho que esteja errado alguém ser agredido por ser homossexual, mendigo, pobre, mulher, transexual, qualquer coisa, mas não acho que polícia, repressão ou agressão sirvam como instrumentos contra tais fatos.
É muito fácil se achar o dono da razão e impôr seu modo de pensar o mundo enquanto certo, ditar regras aos outros sobre como agir diante da realidade das coisas. Mas é difícil ouvir uma crítica e com ela aprender, cada vez mais é fácil fingir que o outro lado não existe, deixar de ver o que estão dizendo por ser muito absurdo, mas não é isso o que está acontecendo? Não é isso que estão pensando? Até que ponto é melhor se fechar em um mundo que seja perfeito para sua realidade individual egoísta?
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A coexistência das vidas observadas em um conjunto imenso de janelas é algo que me instiga. Espaço compartilhado e simultaneidades não percebidas. Olham a rua. Assistem à TV. Tantos dados cotidianos. Mas olhar pra tanta coisa também não me permite pensar em muita coisa. Fico presa a uma multiplicidade de tudo e acabo pensando em nada. Olhar para espaços vazios, um silêncio interminável talvez me permita uma abertura ao pensamento múltiplo.Vai saber…Tudo é nada? Vazio deixa ser cheio? E cheio não deixa espaço pra nada?
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Um olhar que prevê um engasgo. Eu queria, mas não pude. Era como se meu pensamento fugisse de minha mente a cada palavra que a minha boca rompia da língua. Não sei bem se é assim. Mas é como se minha garganta rasgasse a cada tentativa de dizer alguma coisa. As frases se confundiam na mente. Eu fui por esse caminho. Mas onde é que estou? A linha lógica, não.
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Tinha algo a ver com o vento que fazia. Sopro que sussurava no ouvido palavras bagunçadas, confusões. Uma mistura de palavras que se tornava um incômodo estomacal, barulho. Suor que toma o corpo, apertado. O olhar perturbado. As pernas não sabem como agir. O ar fica quente no peito, sensação de sufoco. Foi fugir pr´algum lugar vazio, que faça pensar em algo mais cheio.
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meus olhos se enroscam em seus cachos; fico presa a esse momento, perdido em um labirinto de memórias, onde encontro a lembrança do seu corpo que se movimentando em cima do meu, brincando, feito criança, de pisar em minha barriga, enganando o peso. Caia de rir, me beijava em câmera lenta.
Eu me afogava na profundidade dos teus olhos que parece infinita, feito um mundo que não foi descoberto, ou um mirar que não termina no horizonte, sabe como é? Fica balançando lá no fundo, infinito.
- Eu quero me afundar, eu quero entrar em você, eu quero te ter dentro de mim. Mistura. Alma e corpo. Meu suor, meu gozo é todo teu. Me prende nos teus dentes. Fica em mim.
Por que eu acordei agora? Não é assim, não, não vai. Eu sei que eu te disse palavras feias, mas não, não era eu, fica, eu sinto tanta saudade.
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para ler ouvindo: Nina Simone I Put a Spell On You
Sabia de cor seus traços e movimentos. Seria capaz de reconhecê-la ao longe, ou em qualquer aproximação menor que um segundo. Sabia seu cheiro, sua textura, seu toque. Sentia sua presença, mesmo que ainda distante, se aproximando. O modo que seus pés se combinavam com o chão no caminho do encontro, a soma de suas cinco chaves, num chaveiro de violão, fazendo o barulho único ao chegar próximo da porta daquela que era uma casa das duas. O barulho das chaves feito naquele dia que Alice chegou adiantada pro jantar surpresa preparado para comemorar a viagem porvir. Ela também queria surpreender. Saíra mais cedo do trabalho, que andava a consumindo e não permitia tantos momentos compartilhados. Ela sempre queria dormir mais cedo e a outra queria conversar enquanto ela dormia ouvindo as histórias do cotidiano da outra, era inevitável.
Era bom saber da viagem, Alice largaria algumas coisas e passariam um tempo na Argentina, o aluguel de uma casa lá estava barato, souberam por uma amiga atriz que havia passado uns tempos por lá estudando.
Ana sonhava em passear por aquelas casinhas coloridas e queria comprar livros baratos. A outra queria uma foto do lado da Mafalda. A Mafalda porque era isso que as tinha unido há algum tempo, em algum sebo perdido nas ruas do centro de São Paulo. A mesma procura por um livro. Um sorriso trocado. O fato de saírem e se reencontrarem no metrô. Tiveram de se falar e tudo aconteceu tão rápido. É surpreendente o amor às vezes, pra não dizer que deve ser sempre.
Em pouco tempo estavam morando debaixo do mesmo teto, era inevitável a proposta, gastar dois aluguéis pra ficarem o tempo todo juntas não era algo muito inteligente. E além do mais, a zona leste parecia longe demais, cada vez mais, pela medida da necessidade de se verem, do centro. O centro tinha tudo que pudessem precisar e tinham planos de voltar a estudar, Ana ia pras cênicas, Alice pra letras e lá tinha uma faculdade que tinha fama de muito boa pros cursos.
Então iam vivendo os dias que vinham, conhecendo os detalhes que eram únicos em cada uma. Decorar a disposição das pintas no corpo, a tatuagem nas costas de Ana, a cicatriz de uma queda de um portão na infância marcando o joelho direito de Alice. As marcas da vida. As histórias vividas.
As preferências musicais discutidas e a falta de prazer de ver televisão que era mútua, esta que acabou virando um objeto de apoio das plantas que vieram à tira colo com a chegada de Alice. Ela dizia que ter plantas era uma prova de saber como cuidar das coisas. O engraçado é que ela tinha muitos cactos, o que fazia com que Ana brincasse muito com o que ela dizia sobre o cuidado com as coisas, já que um cacto vive nas condições mais adversas.
A falta de habilidade de Ana na cozinha, que chegou a queimar um miojo, foi uma história que contou pra Alice quando ela pensou em convidar uns amigos para um almoço no Domingo de Páscoa. Ela achava melhor um restaurante na zona Oeste. Acabaram combinando oficinas de cozinha. Era divertido ouvir música e fazer diferentes tipos de comida, a que Ana mais queria aprender era a receita tomates verdes fritos, tinha aquela coisa de ser o seu filme predileto, além de falar de uma história de amor tão bonita. Ela achava que tinha bem a ver com elas duas. Também queria repetir a cena de lambança com os ingredientes. E o fez… Chocolate no rosto, farinha no cabelo. Parece que aquele barulho do riso daquele momento ficou ressoando nas mentes, na casa, por muito tempo.
As tardes do Sábado eram dedicadas a fazer sempre alguma coisa diferente, sair por São Paulo e descobrir coisas gratuitas. Ficar em uma livraria aproveitando os livros que não podiam comprar. Tomar um café. Pegar um cinema. Limpar os discos e ouvir na vitrola que tinham comprado na primeira semana de morar junto. Tinham achado numa loja na Santa Ifigênia, muito barata e até que funcionava bem, tiveram que trocar a agulha, mas a partir daí funcionou direitinho. Achavam que a música na vitrola tinha um som muito diferente, muito melhor. Melhor ainda quando tocava em uma tarde chuvosa, um disco qualquer de jazz e Ana fazia um café, o café preferido de Alice, que achava que para se relacionar bem com uma pessoa era preciso saber se ela fazia café bem. Tiveram muitas músicas que diziam a história delas. Uma variação de Itamar Assumpção a Billie Holiday.
E iam se reconhecendo diariamente. Até se saberem automaticamente. Sabiam o modo dos corpos sentirem. O que os causava prazer. O que os ouvidos queriam ouvir. A música daquele momento. Falavam juntas tantas vezes. E responder “eu também” era algo tão comum que às vezes ficavam em silêncio e riam por saber o que queriam dizer apenas com o olhar, e que havia concordância.
Mas acontece de a vida ser cheia de desencontros. E o amor às vezes fica ao contrário e as coisas não parecem mais bonitas e os pássaros não cantam mais aquela melodia e chega a raiva de ouvir aquela música que fala do “nós dois”, ou uma cena romântica numa praça, que se torna irritante, extremamente irritante. Separações.
Ana se foi um dia antes da viagem, sem deixar bilhete. Alice se sentia apunhalada ao ser deixada num lugar que não era exatamente seu, com as contas por pagar. Sem entender nada do que estava acontecendo. Um momento com uma trilha sonora bem Nina Simone: “I put a spell on you”… de ficar pensando: “Como pode, você era minha, você é minha!” Um desespero de gritar, de cortar, de chorar “até ter dó de mim…”.
Os dias passavam sem serem nem terem sentido. Havia um desprazer imenso em acordar e encarar as coisas, os fatos cotidianos. O silêncio da casa. O barulho da rua. Todas milhões de informações de um trabalho que já não lhe dava prazer e agora dava cada vez menos. Um desejo de desaparecer cada vez mais constante. Ela se perdia nos caminhos repetidos todos os dias. A falta se tornava tão cotidiana que às vezes esquecia-se de sentir falta. E ia percebendo ao longo dos muitos dias, que se acumulavam em meses, que passavam, as coisas se tornavam turvas e não podia mais saber o que era tudo aquilo que sabia de cor, os traços se perdiam e não poderia mais a reconhecer se a encontrasse numa rua. Não sabia mais fechar os olhos e saber os detalhes de seu corpo. E isso era triste. Se saber cada vez mais perdida das coisas que a memória gostava de sentir, mesmo que doesse.
Precisava mudar, voltar a ter uma vida social. Sair pra tomar chuva numa tarde de Domingo, voltar a andar, comprar novamente lp´s, aumentar sua coleção de cartões postais. Largar vícios adquiridos com a ausência dela. Fumar estava fazendo muito mal. Uma dor de cabeça constante havia lhe tomado. Além de ter uma ressaca constante, já que a única coisa que tinha feito bem naquele tempo era a escolha de vinhos baratos no mercado sujo mais perto de sua casa.
Precisava voltar a sentir, procurar novas coisas, se entregar a qualquer coisa, sentimento que fosse. Fazer um curso, porque tinham largado a faculdade pra viajar, largar o emprego, procurar um psicólogo, cortar o cabelo, ver um show bacana, uma peça a toa, andar pelas ruas, pegar um ônibus desconhecido e saber onde vai dar, ouvir histórias, sentir o ar ou viajar, desde que cancelou a passagem pra Argentina não tinha chego nem sequer próximo da rodoviária. Mas essas coisas… Ela não sabia bem por onde começar, qual é a linha que leva alguém pra reviver a vida? Qual a escolha que se faz pra largar a angústia que insiste em acordar todo dia do seu lado? Qual o domínio que se tem diante das coisas? Qual a certeza que pode se ter de que irá surgir de novo alguém? E de que se vai amar de novo? E de que isso resolve todo o passado?
Ela se sentia fria. Incapaz de acreditar em qualquer novo fato. Em qualquer pessoa. A gente fica meio descrente depois de sentir isso que chamam de amor. Vai ficando difícil confiar, acreditar em qualquer coisa que te faça sentir aquela sensação estranha do estômago, como se tivessem alguns bichinhos dançando lá, chegando aquele frio que vem até a garganta. E chega a dar raiva de um pensamento perdido na pessoa. Não, não podia sentir isso. Era como voltar todo o sofrimento.
Por isso era mais fácil fugir, dizer que já não tinha mais idade pra isso. A idade é um meio fácil de justificar todas as coisas. Como se ela chegasse e tudo se tornasse um tanto impossível, amar, sair…Como se ela justificasse um saber não se machucar.
Ela chegou a ter uma nova pessoa na vida, mas era nova demais, tanto tempo de diferença, não, não pode ser, Luiza ainda acreditava ser possível se apaixonar perdidamente, além de ser possível amar duas pessoas ao mesmo tempo.
Luiza, porém, a prometia que queria ser só dela, o que deixava Alice bem confusa, mas no fundo fazia isso só porque Alice não acreditava nesse lero lero de dois amores, e ainda se encontrava com a ex, que morava numa cidade bem distante e dizia ter um carinho imenso por ela. Tudo acabou, mas tudo acabou por voltar de um jeito bem desresolvido. A relação acabou se tornando uma loucura. Mesmo não acreditando que gostasse de Luiza, Alice queria que ela estivesse por perto, pelo menos nesses momentos não sentia coisas tão ruins pela vida, mas ao mesmo tempo não queria desenvolver nada. Então se foi criando uma dependência mútua de estarem juntas e de discordarem em tantas coisas na vida. Uma dependência da sensação do abraço. Da voz que chega. Era inevitável…
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eu te levaria pra conhecer o mundo. Estaríamos em todo lugar que passasse nosso desejo. E íamos brincar de dublar diálogos incompreensíveis em Paris ou na Grécia. Perguntaríamos do nosso destino ao oráculo. E também podíamos tomar banho de muito tipo de mar. E ver as intermináveis paisagens verdes. Nos perder nas cachoeiras de todo lugar. Além de deitar em vários lugares pra ver os pôres do sol.
A gente ia ver todos os espetáculos de tudo que é tipo de arte. A gente ia se amar por tantos cantos. Ia sofrer as coisas tristes do mundo e ia pensar que estaríamos bem só indo pra lua, já que de lá se vê tudo azul na terra. Depois íamos achar sentido pra tudo que existe, pra depois perder. A gente ia marcar encontro numa praça da Itália pra pular na fonte e pegar moeda. Ia subir montanha em Butão. Ia tomar chuva em Moçambique…A gente ia se perder em abraços. A gentia podia sentir profundamente. A gente era o que bem entendia, e ia e ia…
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“Eu escrevo pra me entender…”
de A ordem secreta dos Ornitorrincos de Maria Alzira Brum Lemos
uma parte minima de todo ele.
ficam uns trechos:
http://www.cronopios.com.br/site/lancamentos.asp?id=3578
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Tenho pensado tanta coisa sobre tudo. Fica confuso colocar tudo em ordem, pensar em como comunicar isso de alguma forma, é, porque há uma necessidade de obter respostas ao que se pensa, um jeito de se acumular mais o que pensam sobre isso, ver o que acham, o que não acham, enfim.
Estive em uma palestra sobre o medo. E é impressionante como vivemos com medo, pensar isso. Em como a grande parte das coisas funciona na insegurança do “e se…”. Medo de perder o que temos, mas o que é que é tão necessário ter? Sabe, eu sei que eu me cerco de necessidades, de desejos que não são tão fundamentais. Essa coisa que nos enforca. Medo de ser como se é.
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qualquer coisa me dá mais liberdade de pensar, de criar justificativas [in]fixas. “qualquer coisa que não (quer) fica[r] presa” à mesmice de existir no cotidiano. qualquer coisa no tempo, qualquer coisa que muda, que se forma sempre. “qualquer coisa que sente saudade”, qualquer coisa que sente vontade, qualquer coisa que sente querer. qualquer coisa que se pensa, qualquer coisa além do que se diga, qualquer coisa que não se saiba.
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